terça-feira, 16 de julho de 2013

Sobre chegadas

Na realidade, 20 de novembro de 2013.

Revivendo o blog num momento de espera. E revivendo arquivos, fotos e outros momentos. Enquanto espero, espero e espero.
E como o momento é de espera, mas de chegadas, quis deixar registrada aqui a cartinha que escrevi para a Teodora, filha da minha muito-muito-muito querida amiga Ester, quando ela nasceu em julho deste ano.
  


Montreal, 16 de julho de 2013


Teodora, minha querida,

Seja muito bem vinda a este mundo!!!
Em primeiro lugar, deixa eu me apresentar, eu sou a Marina. Você pode me chamar de tia Marina, apesar de eu saber que você já tem uma tia oficial chamada Marina. 
Assim sendo, você pode me chamar de tia Marinóvski (como sua mamis me chama), de tia MM, de tia Marinão ou do que você quiser. Com o tempo, a gente se ajusta nos nomes, no worries.
Eu, por minha parte, decidi te chamar de Dorinha. Escolhi Dorinha porque acho que seus pais não vão gostar muito do apelido e eu achei por bem ser uma tia pentelha para dar uma subvertida nas coisas. Mas, veja só, se você não gostar de Dorinha, eu posso reconsiderar o apelido. Digo que posso porque, como tia pentelha como já me assumi, pode ser que eu te chame de Dorinha na frente dos seus amigos quando você for uma adolescente, di modi a te fazer passar vergonha. Percebe?
Assim são as tias pentelhas...
Bom, estou escrevendo primeiro para me apresentar.
Eu sou amiga de sua mãe desde os idos anos 2002. Na verdade, eu conheço sua mamis desde 2002, mas não sei bem dizer quando foi que viramos BFF (best friends forever – tô explicando pra você e pra sua mamis, que sempre reclama das minhas expressões em outras línguas). Pois é, não sei dizer quando foi que viramos assim muito amigas. Mas viramos. E hoje somos muito-muito-muito amigas (essa também é para sua mamis, ou melhor, em homenagem à ela, que adora muito-muito-muito uma repetição).
Enfim, mas o fato é que eu e a sua mamis somos muito amigas. Do tipo que já vivemos um montão de coisas juntas. Nós nos conhecemos na faculdade, na SanFran (SãoFran, segundo sua mamis. Ó, isso vai ficando claro aos poucos na sua vida, tá? Não precisa se preocupar em aprender tudo agora...), aliás, acho que foi lá que sua mamis e seu papis se conheceram também. Bom, eu e sua mamis nos conhecemos na faculdade, fizemos política juntas no Grupo Ruptura (depois ela te conta mais) e assim fomos ficando amigas. Fizemos mil programas juntas. Viajamos juntas para vários lugares também, como para Buenos Aires, para Porto Alegre no Fórum Social Mundial, para Caraíva numa virada de ano, para o Rio em muitos carnavais, para vários congressos internos em Salto (na casa do tio Bruno, que você deve conhecer logo) e em outros interiores, para vivências, e sei lá mais quantas coisas que inventávamos. Eu também já fui visitar sua mamis em Munique, quando ela morava por lá e eu morava em Paris (muito phyna eu, eu sei), apesar de ela não ter ido me visitar em Paris, o que é quase imperdoável. Nós já rimos muito juntas e choramos juntas algumas vezes também. Já passamos uns enroscos e já resolvemos todos os problemas da humanidade e mais os problemas das nossas vidas em incontáveis mesas de bar. Nós já até moramos juntas, para você ter uma ideia. E sobrevivemos a isso! Considerando que somos pessoas bem diferentes no jeito de organizar uma casa, como você vai descobrindo, devo dizer que nós nos saímos muito bem na empreitada (e seu papis deve me agradecer todos os dias por ter contribuído com a treinamento de uma Ester mais organizada – hehe!).
Entonces, tudo isso para te contar quem sou eu na sua vida. Na real, estou te contando quem sou eu na vida da sua mamis, né? Mas do tanto que sou amiga da sua mamis, acho que a gente também pode ser amiga, né não??? Acho que essas já são boas credenciais para você me considerar uma pessoa de bem, diz aí?
De qualquer forma, eu juntei aqui umas fotinhos minhas e da sua mamis juntas em diferentes momentos dessa vida para você ver do que estou falando. Ah! E para você me reconhecer também, quando a gente se conhecer pessoalmente, né?
E, ó, repara que na última fotito você tá também! Tá dentro da barriga da sua mamis (como você chegou lá, sua mamis e papis vão se encarregar de te explicar um dia, belê?). Mas você tá lá! E eu tô te mandando um beijinho, viu só?
Bom, voltando, eu não estou por aí acompanhando de pertinho fisicamente o seu nascimento porque estou morando em Montreal, no Canadá. Montreal fica no Norte do mundo, mais precisamente na América do Norte. Tipo isso, só que ao contrário, ó:

Então, eu moro aqui desde 2012, pois vim trabalhar nas bandas de cá. Longa história sobre como vim parar aqui – um dia te conto – mas é por isso que não estou aí agora. E se a vida por aqui não tivesse dado toda uma embolada (boa!, já volto a isso), seguramente eu teria ido fazer uma visita para acompanhar a sua chegada nas bandas daí.
Mas voltando ao mundo do trabalho, eu estou aqui porque trabalho com prevenção da violência. Mais tarde você vai entender do que se trata. Por ora, basta dizer que estou aqui tentando mudar um pouquinho o mundo. Porque sabe Dorinha, esse mundo em que você chega agora tá precisando de uma chacoalhada, viu?     

Acho que estamos bem no processo de transformá-lo, mas ainda temos um longo caminho pela frente. Especialmente para as mulheres, Dorinha. Você vai se ligar um dia de como a história da humanidade é uma história dos homens. As mulheres só começaram a participar ativamente de forma substantiva dessa história no século XX, acredita??
Esse é um tema super complexo, não vou te explicar agora, mas você pode ter aí em conta de que você está nascendo num mundo muito diferente para as mulheres do que quando as suas bisavós nasceram (ainda bem!!!). E essa transformação ainda está em processo...

De qualquer forma, existem pessoas que estão por aqui já batalhando para deixar um mundo muito mais bacana para você viver. Eu estou tentando fazer minha microparte nessa história. Sua mamis também faz o mesmo por aí. O seu papis e o seu tio Guiba (meu marido, que você também vai conhecer pessoalmente logo menos), também estão nessa luta. E mais um montão de amigos nossos e outras tantas pessoas que nem sabemos quem são em todos os cantos do mundo.
Dorinha, não é difícil ser uma pessoa que quer mudar o mundo e trabalhar para isso, sabia? Começar se indignando com as injustiças que existem por aí é o primeiro passo. E depois, é só você pensar em como você pode fazer a sua parte para tornar o mundo mais bacana e justo para todo mundo.

Nós estamos nessa luta e eu tenho certeza que você se juntará a nós. Eu sei, eu sei, parece grandes expectativas, né? Mas, olha, nascendo aí na sua família, eu tenho todos os motivos do mundo para ter altas expectativas.
Agora, veja, não se sinta pressionada, tá bom? Eu acho que ser uma pessoa que quer fazer do mundo um lugar mais bacana é o caminho natural. Ninguém está esperando demais de você, nem estamos apostando as nossas fichas em você porque somos frustrados com as nossas escolhas. Nada disso!
Só estamos todos confiantes (aqui estou incluindo seus pais, o resto da família e mais a família ampliada que são os amigos do coração – você vai entender um dia) de que com a educação que você terá aí na sua casa, com os seus pais, você naturalmente será uma pessoa bacana querendo deixar o mundo um lugar melhor para todas as pessoas.

E, Dorinha, pode se considerar uma pessoa privilegiada por ter nascido nessa sua família aí. Seus pais são pessoas incríveis que vão te apresentar o mundo de um jeito todo especial...

Eles vão errar, seguramente, acho que esse é o normal. Mas eles vão acertar mais do que errar no longo prazo, pode confiar nisso.
E quando você estiver de saco cheio dos seus pais, você pode correr para os seus tios – tipo para a sua tia aqui. Porque os tios, em geral, tendem a te defender dos seus pais, mesmo que, no fundo, eles concordem mais com os seus pais. É uma coisa de solidariedade familiar e de birra entre adultos, sei lá, tô divagando aqui, mas acho que você pode confiar nessa minha intuição.

Assim, se você quiser apoio para as suas crises existencias adolescentes mal compreendidas pelos seus pais, por exemplo, pode vir, que estarei de braços abertos. Se você quiser que alguém te ensine a criar um perfil no facebook ou a mexer no seu celular novo, também pode me procurar (se é que eu vou ser assim tão atualizada quando você tiver idade para essas coisas, hehe). Mas sério, podemos pensar em várias situações em que você pode me procurar para te apoiar.
Agora, veja só, se for para pedir princesa da Disney de aniversário ou se quiser um adulto responsável para te levar no show da boy band do momento, minha amiga, melhor você contar com outros tios, tá bem? Que essas aí eu vou estar passando, meu bem.
Até porque, Dorinha, não te contei isso ainda, mas eu também serei mamis em breve, se tudo seguir bem. Estou por aqui fabricando na minha barriga dois amiguinhos para você. E, olha que bacana!, Dorinha, você será mais velha do que os meus filhos (eu ainda não sei se eles serão meninos ou meninas ou um menino e uma menina, tá?) e vai poder ensinar para eles muita coisa do alto da sabedoria que os seus seis meses de vida a mais lhe concedem.
Espero que você e meus filhos sejam amigos assim como eu sou amigona da sua mamis. Diz aí se não ia ser legal?
Vai ser legal também para a sua mamis se solidarizar com os meus filhos contra mim, assim como eu me solidarizarei com você contra ela, veja só!

Enfim, Dorinha, essa cartinha é só para começar essa nossa história juntas. Espero que muitas e muitas cartinhas ainda venham por aí. Eu vou a-do-rar receber uma cartinha sua quando você já souber escrever sozinha. Pensa só que bacana vai ser?
E pensa só que quando a gente for bem mais velha a gente vai ter um monte de cartinha para contar a nossa história? Que nem os seus pais têm um monte de emails para contar a história deles. E eu e sua mamis também temos também um monte de emails que contam a nossa história.

Ah! E a cartinha é também um registro desse dia em que você nasceu, porque estou aqui terminando essa cartinha no dia 16 de julho de 2013, exatamente no dia em que você nasceu.
Quem me contou que você nasceu foi a sua tia Quel. E me contou quase real time, porque eu pedi para ser assim. Apesar de estar longe, eu queria estar pertinho. E a tia Quel me deixou bem pertinho desse momento todo especial. Já vi algumas tantas fotinhos suas, que já estou até me sentindo íntima!
E também falei com a sua mamis logo cedinho para saber como foi a sua chegada. Falamos rapidinho, mas depois ela me conta tudo com calma, quando ela tiver mais tempo e quando ela também tiver processado tudo o que ela andou vivendo.
Para registrar esse dia, estou te mandando dois exemplares do dia de hoje de jornais que circulam por aqui em Montreal. São os jornais de distribuição gratuita que temos aqui, para você saber o que estava acontecendo no mundo – ou o que era notícia do que acontecia no mundo em Montreal no Canadá – no dia em que você nasceu. No 24h, tem até um horóscopo que fala sobre a personalidade de quem nasceu no dia de hoje. Olha lá. Tá em francês, mas pede pros seus pais traduzirem para você. Eu acho tudo isso uma baboseira – essa coisa mística, horóscopo, sei lá –, mas vai que você se identifica, né?
E, olha, vou admitir, uma cartinha decente merecia ser escrita à mão, eu sei disso. E você pode até ficar indignada com essa cartinha aqui. Mas me explico. É o seguinte, minha amiga, meu jeito de organizar o texto é todo caótico, de modo que vou editando tudo ao longo do que escrevo, começo pelo fim, volto pro começo, escrevo o meio e mudo tudinho de lugar de novo e várias vezes... Fora que vou escrevendo na cabeça, antes de botar no papel e vou escrevendo ao longo de dias e dias – essa cartinha começou há mais de mês, para você ter ideia. Assim sendo, eu resolvi escrever tudo isso no computador para depois passar a limpo. E você se adiantou e nasceu muito cedo e não deu tempo de passar a limpo...
Mentira! Mentira deslavada!!! Esse finalzinho é mentira. Você não está nada adiantada, flor. A verdade é que desde que saí da faculdade, eu não escrevo longos textos à mão e, veja só, minha mão não está mais acostumada a tamanho esforço e ela doía somente de imaginar que eu fosse passar tudo o que tá aqui a limpo. Tá ligada? Entonces, daí, que eu decidi que a cartinha ia ficar mesmo toda bonitinha ainda que fosse toda digitada, porque foi escrita com muito amor. Mas para melhorar a situação e deixar tudo mais pessoal, eu enchi a sua cartinha de Mafalda, porque tenho certeza que você vai gostar da Mafalda tanto quanto eu e seus pais gostamos, quando você for grande para entendê-la. Percebe? E aí, ficou bonitinha, vai? Acho que posso ser perdoada pela carta digitada, néééé?

Enfim, minha querida, escrevo para desejar as melhores boas vindas nesse mundo e para te contar que você foi toda muito querida e desejada por todo mundo que tá aí/aqui por perto. Que bom que você chegou!
E quero desejar também que sua vida seja muito cheia de vida por aí. E que ela seja toda repleta do seu bem viver, que você vai descobrindo e construindo ao longo do seu caminho.

Dorinha, te mando todo o meu carinho e um cheiro. Nos vemos em breve!
Com amor,
Marina

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sobre auto-sabotagem, selfvergonha, o aeroporto e o bright side


Pois sim, pratiquei nova auto-sabotagem. Acho que sou meio especialista.
E estou com tanta selfvergonha que achei por bem dividir.

Pois bem, estou aqui no aeroporto de Bogotá. Há 8 horas estou aqui. Ficarei mais 8. E sabem por quê? Porque perdi meu voo para Atlanta e, consequentemente, meu voo para Montreal.
Sério. Vão vendo.

Cheguei duas horas e meia antes, fiz check in, fui pro embarque, comprei café e umas bugiganguinhas para torrar os meu últimos pesos. Última vez que olhei o relógio, eram 08h50. Tinha um voo às 10h35. Sentei para tomar um delicioso café colombiano e me pus a acertar alguns dos meus emails de trabalho dos 4 dias que passei fora.
Assim, tranquila.

Olhei o relógio de novo. 10h10. Pensei, hum, ferrou. Corri, manca (que estou com o joelho inflamado). E o café estava a 200 metros, se tanto, do portão de embarque.
Enquanto corria coxa, via a cara de espanto dos funcionários no portão de embarque, o que já me anunciava a merda, ou o milho, como diria o Guiba.
Chego.
Ah, señora, pero el avión ya cerró sus puertas. Usted ya no puede embarcar.

Mano. MA-NO! Pedi, implorei, dei uma choradinha, mas não havia o que fazer. Lama. LA-MA.
Surreal o que fiz comigo mesma.

E ainda levei bronca dos funcionários que me contaram que me anunciaram no alto-falante, que me buscaram na imigração e que passaram gritando o meu nome nos outros portões de embarque. Tão entendendo???

Depois disso, passei as próximas horas aventando todas as minhas possibilidades de chegar em casa o mais rápido possível. Percorri o aeroporto inteirinho, terminais 1 e 2, e os fundos, onde ficam as oficinas das cias aéreas, umas dez vezes no mínimo. E ainda contei com a ajuda da minha mãe, sempre parceira, se mobilizando diretamente de São Paulo.

Enfim, às 14h00, consegui resolver com a Delta mesmo, um voo para NY e de lá para Montreal. Saindo daqui às 23h59. Não sem antes pagar a multa pela alteração. Olha que tudo!
E aqui estou eu, na lama. No aeroporto de Bogotá.
E nem me atrevi a sair daqui que, com o trânsito de Bogotá, corre o risco de eu chegar em Montreal nunca mais.

E assim estoy, mais 8 horas me esperam para entrar num avião para voar 6 horas até NY, esperar 3 horas e voar outra hora e meia até Montreal. Seguro que dava para chegar na China nesse tempo.

Enfim, faz bem compartilhar a desgraça. Acho.

Tentando um “look at the bright side”, o aeroporto está com um terminal internacional novo e tem internet de grátis. Olha que bom!

E olha outra coisa o bacana, o senhor guardinha do controle de passaportes que teve que cancelar o meu carimbo de saída da Colômbia, me encontrou há pouco no saguão do aeroporto e me parou para perguntar como eu estava e se eu tinha conseguido resolver minha situação. Um senhorzinho fofo de tudo. Quase, qua-se, dei um abraço nele.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sobre a piada e o crime

Estive em Tijuana, México. 
E foi tudo bem, apesar do terrorismo que minha tia fez, me dizendo que Tijuana sempre aparece no CSI, ou todos os alertas que o agente de imigração americano fez quando eu disse que só passaria em trânsito pelos EUA e Tijuana era meu destino final. 

Mas, vá lá eu nunca aceito esses terrorismos e na minha área de trabalho é comum eu parar nesses lugares tidos como os mais violentos do mundo.

E sempre que viajo a trabalho para essas áreas difíceis, rola a pergunta sobre o meu trabalho. E eu sempre respondo com a minha piada típica: trabalho com o crime. E fico curtindo a cara de espanto do meu interlocutor pelos 10 segundos que se seguem à minha resposta. 

E aí que estou no carro com o motorista e um assistente que me levavam de San Diego a Tijuana. 
Veio a pergunta. 
E eu tasquei minha resposta: "trabalho com o crime". 
E nisso, o cara que dirigia o carro me responde: "nós também!". 
...
Imaginam a minha cara nos 10 segundos seguintes?! 

Rá! Feitiço contra a feiticeira!

Eles eram advogados criminais. Só isso. 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Sobre casais e ursos

No mês passado, tiramos umas mini-férias e fizemos uma viagem pela Gaspésie, que é uma península aqui no Quebec, que fica entre o Rio Saint Laurent (ou Saint Lawrence, em inglês) e o Atlântico. Os 10 dias foram as mini-férias que conseguimos tirar, no meu caso somando dias de recuperação pelas viagens em que tenho que passar o fim de semana fora e dias de doença (valeu, direitos trabalhistas canadenses!!!). A viagem foi incrível.
E teve alguns highlights. Vou contar do urso. 

Gente, vimos um urso! Um não. Vimos dois ursos!!! Não juntos. Um de cada vez. Eu só vi um, na verdade, mas meu pai e Guiba viram os doizinhos. Mas olha que coisa! Vimos os ursos e não saímos correndo de medo e até achamos o máximo. Mais ou menos. 

Foi assim ó:
Antes de partirmos, pegamos mil informações sobre a região, né? Uma amiga, que já fez parte dessa viagem, contou para a gente sobre o folheto que ela pegou em um dos parques que explicava sobre o que fazer no caso de você dar de cara com um urso. 
Basicamente, a sobrevivência se garante em alguns passos: 1) se você viu o urso, mas ele não te viu, você sai andando de costas, olhando para ele – para monitorá-lo – devagar e sem barulho; 2) se você viu o urso e ele te viu, você pode se fingir de morto e torcer pro urso acreditar que você está mortinho da silva; agora 3) se você viu o urso, ele te viu, nada disso funcionou e ele te atacar, fingir de morto não resolve, você tem que atacar o urso de volta (ou seja lutar com o urso, entenderam, né?). 
Mas aí que nós chegamos ao parque, perguntamos sobre o urso e o guia que nos atendeu disse que era muito difícil a gente dar de cara com um urso, porque os ursos morrem de medo da gente e, como eles têm uma alimentação que é 95% vegetariana, ainda que víssemos o urso, era mais provável ele correr da gente do que nos atacar. Além disso, estando em quatro pessoas, o urso ouviria nosso barulhos e se mandaria, antes que pudéssemos vê-lo. E ele ainda mostrou as florzinhas amarelas que são a base da alimentação do urso preto (que é o urso local) para comprovar a alimentação vegetariana do bicho, sacou?
Ok, muito bem informados, entramos na trilha. E lá na trilha tinha um sem número de florzinhas amarelas, mas nós nem estávamos lembrados da existência do urso. Até que quando estávamos chegando ao fim de uma parte da trilha, o meu pai e o Guiba acharam que tinha gente no meio da mata (o que é total proibido por aqui, você só pode andar na trilha) e ao analisar que a tal gente andava agachada, concluíram com sapiência de que se tratava de um urso. 
O urso se foi, mas aí, nós quatro piramos para achar o urso. Ficamos no maior silêncio possível fazendo o resto da trilha para não espantar qualquer urso que por ventura estivesse por ali, e na maior atenção olhando para dentro da mata, procurando ursos. Mas não vimos mais nada. 
Até que chegamos a um pedaço da trilha em que meus pais desistiram de continuar. Eram mais 2,5km e eu e Guiba fomos sozinhos. Nova trilha, mata bem fechada, eu e Guiba. E nós procurando o urso. 
Até que meu marido, num lampejo de sanidade, repara “Marina, a gente é louco de estar procurando um urso! Tipo, estamos nós dois, no meio dessa mata fechada, sozinhos, se um urso aparecer, fod...”. Percebem??? 
Sa-ni-da-de.
E então, seguimos os quilômetros restantes fazendo barulho, pisando forte, cantando e assobiando, just in case, né...


Tão entendendo o espírito??

O segundo urso nós vimos da estrada, quando estávamos devidamente protegidos em nosso carro. Sem glamour nenhum, tipo simba safári. 
Não tão legal, né?, mas aqui estou para contar a história!


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Sobre apartamentos, o italiano, o racista e o gato, entre outros proprietários


Pois sim, faz um tempãozão que não consigo parar e escrever algo aqui. Uma pena. Adoraria ser mais assídua com o blog. Mesmo. Mas acabo por não priorizá-lo. Escrevo mil textos na cabeça e nunca paro para escrevê-los de verdade e publicá-los.
Mas sei que tenho leitores (porque acompanho as estatísticas do brogui), o que é ainda mais surreal. Tipo essa minha amiga louca controladora querida e atenta, a Isabela, que sempre passa aqui para ver o nada que atualizei e me manda um esculacho falando sobre o quanto eu não sei ter um blog recadinho delicado sobre como ela sente falta dos meus textos.
Ok, parênteses feito, vamos lá. Esse texto tá velho, mas tá novo. Vocês já verão porquê.

Então que o Quebec tem esse lance de dia da mudança. Vou explicar. Dia primeiro de julho é o dia da mudança no Quebec. Isso porque a graaande maioria dos contratos de aluguel aqui são de um ano e vão de 01 de julho de um ano a 30 de junho do ano seguinte. Não por coincidência, primeiro de julho é feriado nacional, ou o dia do Canadá. Acham que o Quebec escolheu esse dia para ser o dia da mudança por quê? Boicote, óbvio. Tem coisa que mais impossibilita uma festa ou comemoração qualquer do que o dia em que você vai fazer uma mudança?!?! Tem não, né?
Pois sim. Então, com esse lance dos contratos anuais, todo mundo tem que avisar o landlord se vai mudar ou não com algum prazo de antecedência, o que ocorre geralmente em março.
Assim, tal qual fomos informados, março era o momento ideal para acharmos o nosso novo lar. E lá fomos nós, Guiba e eu, muito dedicados, nos enfiarmos de cabeça na busca pelo lar prometido.

E quase enlouquecemos na busca. Sério.

O esquema é hobbesiano (o tal todos contra todos). Algumas pessoas fazem um open house que, in the case, significa que em um determinado dia e durante tantas determinadas horas, qualquer um pode passar e visitar a casa. Outras pessoas preferem agendar hora com cada interessado, o que pode ser feito por email ou telefone. Em geral, telefone, para eles terem certeza de que você está interessado. Em alguns casos, a pessoa já te faz umas perguntas por telefone mesmo e te descarta na maior se você não tiver o perfil.
Quando rola a visita, se você gostar, pode fechar o negócio ali na mesma hora e sair de lá devidamente apartamentado. O proprietário pode decidir também priorizar a ordem de chegada (ou de visitas) e dar um dia para você manifestar o seu interesse. Ou pode ser que o dono vá fazer uma lista de interessados e vai escolher depois quem é o seu preferido, segundo seus critérios nada objetivos. Nada objetivos, porque, afinal, como bons canadenses que se prezam eles não perguntam nada da sua vida pessoal. Nem mesmo de onde você vem. Ah! E sempre tem a tal verificação de crédito que, in the case, significa que eles vão ver se seu nome não tá sujo na praça.
Mas o mais curioso de tudo isso é que a escolha sobre quem vai levar o tão sonhado aluguel de um 4½ (isso significa, 2 quartos, sala, cozinha e banheiro, tá leigos?!?) no melhor lugar do Plateau Mont Royal não tem nada a ver com quem vai pagar mais. Porque o preço não muda. Em uma ocasião, para um apartamento no qual estávamos bem interessados, pensei em fazer uma proposta de aumentar o valor do aluguel para ver se ganhava o coração do proprietário e dava um cambau no casal que tinha dito que queria fechar o apê antes da gente, maaaaas confesso que fiquei com medo de ser presa por não saber joga o fair play do universo dos aluguéis em Montreal e não propus nada além de fazer a minha cara de coitada e sofrida para o dono ter dó de mim.

O dono não teve dó de mim. Nem esse e nem o outro que não nos escolheu. Porque eles são canadenses e canadenses são justos e burocráticos e seguem à risca as regras que eles mesmos criaram e não vão alugar nada para você só porque você tem essa cara lidinha de coitada e sofrida e limpinha ou porque que seu marido tem um PhD e também coleciona discos e toca flauta transversal que nem ele. 
Entonces, que no fim das contas, visitamos uns 20 apartamentos no total. E só dois – doizinhos! – nos interessaram a ponto de fazermos uma cara de casal limpinho investida para tentar alugá-los. Para o primeiro, fizemos toda a aplication, loooonga aplication, para sermos avisados horas depois que o casal que tinha aplicado antes de nós, ficou com o apê. No segundo, estávamos na fila para ver se o dono ia nos escolher, mas ele não nos escolheu...

Mas o lance é falar sobre os apartamentos que não nos interessaram. Ou das pessoas que se interessaram muito por nós. (Me-do.). Vou contar os highlights.

Tipo o italiano. O italiano era um figura. Fomos lá visitar o apê. Guiba e eu. E ele foi com a nossa cara. Mas num tanto e num tanto, que ele começou a ligar para mim no dia seguinte até eu ter de ser mal-educada e parar de atender. Ele me ligou algumas vezes para saber se nós já tínhamos decidido. Até que (bote um sotaque italiano falando em inglês aqui) “Marina, me fala, qual o problema com o meu apartamento? É o preço??? Marina, me fala o seu preço e eu fecho!”, eu tentei argumentar que não era lá bem o que eu tinha em mente. E ele, “ah, você está procurando o apartamento ideal, né?” Eu, “isso” (achando que estávamos chegando em algum grau de compreensão aqui, no estilo não vou dizer que não gostei do seu apê, afinal nem achei seu apê uma bosta, mas eu tenho esperança de achar algo melhor, mas não quero te descartar assim tão rápido). E ele, “pois desiste, o apê ideal não existe e se você enrolar, vai ficar sem nenhum”. Obrigada pelo conselho, néah? Aí, tivemos que cortar relações. Mas juro que o italiano era figura. Depois da visita, o Guiba soltou um “a gente não quer alugar esse apê, né?, mas a gente podia chamar esse cara para comer uma pizza qualquer dia...”. Não alugamos o apê e ainda não chamamos o Domenico para a pizza.

Teve um outro cara mais estranho ainda. Ele gostou de mim. Mas eu nunca o vi na vida. Nós fomos visitar o apê e quem estava por lá era a atual tenant, uma estudante que não devia ter mais de 19 anos. Eu troquei duas palavras com a menina. Guiba, por sua vez, só disse oi e tchau. Mas eu ganhei o coração dela sei lá porque cargas d’água. Talvez porque eu tenha pedido licença e agradecido por ela ter nos recebido na casa dela, o que deve ser um comportamento alto padrão na batalha dos apês em Montreal. Mas ela falou algo sobre mim para o proprietário que o impressionou e ele me ligou na mesma noite para querer fechar o negócio. Mas nesse caso era mais do que osso. O apê era horroroso e estava nojento. Tipo república em que moram 12 caras e que nunca viu uma faxina. Mas minha elegância não me permitiu dizer isso para o cara, que continuou me ligando, mandando mensagem no celular e emails. E eu parei de atender, óbvio.

Em outro apartamento que visitamos, o administrador (que é um zelador com mais status) tentou nos convencer que ali estava nossa futura casa. O apê não era péssimo, mas não era super bacana também. Mas olha isso. O cara abria a casa de todo mundo, na maior, para mostrar os apês. Abria sem bater e perguntava gritando se alguém estava por lá. E achando que estava ganhando nossos corações, ele começou a contar sobre como a vizinhança era bacana e dar detalhes da vida de todos os moradores do prédio. A-han que eu quero o cara vigiando a minha vida, né? Mas até aí achávamos que aquela podia ser uma opção razoável – preço, tamanho e localização até estavam valendo a pena. Até que, para ressaltar a qualidade do prédio que ele administra, o cara avisa que lá não tem nenhum negro morando: “eu não sou racista nem nada, mas sabe como é, né?, são hábitos diferentes”. Parei de ouvir e fiquei tentando lembrar se eu sabia se racismo era crime no Canadá e se eu poderia chamar a polícia para prender o infeliz. E de lá fomos embora sem lar.

Outro figura master era o quebecois doido. O apê (eu precisaria explicar o que é apê em Montreal, tá?, porque não é apê que nem estamos acostumados em Sampa. Em geral, é mais um estilo casa antiga dividida em alguns apezinhos, o que pode causar umas situações nada razoáveis para os meus parâmetros e que eles consideram super normal, do tipo ter um quarto sem nenhuma janela ou um banheiro no meio da sua cozinha) era nada agradável. No nível da rua e com um porão com mais mofo do que sei lá o quê, onde ficavam as máquinas de lavar e secar e tinha um quarto que ele queria nos convencer a ser o das visitas – tipo, super razoável instalar pai e mãe na lavanderia mofada, certo? Mas isso tudo foi o que eu adivinhei da conversa com ele, porque ele falava quebecois (que por alguma razão estranha, eles insistem em achar que é língua francesa) e eu não entendia quase nada do que ele estava dizendo. Guiba já tinha desistido há muito, mas eu sou mais perseverante. Até que o cara resolve abrir a porta da cozinha para a rua (todo lugar aqui tem duas saídas – por menor que seja, é lei, você tem que ter duas saídas para casos de emergências) para mostrar para a gente que dava para botar um barbecue ali (na ruazinha lateral) e usar a rua como seu quintal (para parâmetros de Montreal tá tudo ok) e ao fazer isso um gato entra na casa. E ele, sem sofrer muito, constata que o gato era o gato dos atual tenants que ele deve ter deixado escapar em alguma visita anterior e que agora estava retornando ao lar. Aí, o gato sai de novo pela porta e fica na rua. E o cara, constatando agora que era meio grave perder o gato alheio, vai tentar resgatá-lo. Estou chorando de rir ao lembrar a cena, mas não vou conseguir descrever para vocês visualizarem. Mas tento. O cara, meio que vestido de pijama, um senhor já, conversando com o gato em quebecois (uhuuuuuu le chat...) e fazendo uma estratégia para agarrá-lo enquanto o gato, com toda a sua gatice que lhe é peculiar, vai dando o maior baile no cara. Eu teria que desenhar. Ou fazer uma reprodução em filme. Mas juro, de gargalhar. Eu e Guiba até sentimos que devíamos ajudar o coitado do gato, mas não conseguíamos parar de rir.

E no fim das contas, visitamos todos esses apartamentos e outros tantos e paramos, para não mais sofrer. Desistimos. Apostamos que não ficaríamos na rua e decidimos dar um tempo para aparecer aquele sinal divino. E óbvio que o sinal apareceu, né? Veio da sala ao lado. Comentei com um colega de trabalho sobre a busca sofrida e ele me apareceu com o apartamento de um super amigo dele, pronto para morar, melhor localização ever, super limpo e bem cuidado, grandãozão e tudo o mais. É praticamente um 6 ½, o que significa que tem 6 cômodos mais banheiro, tzá?
E é isso, estamos aqui, lindamente instalados e esperando a visita dos lindos que estão aí. Simples assim. Óia a foto de um pedaço do apê já com a nossa cara aqui, ó. Que orgulho do lar:

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Sobre lugares e sensações


Estive duas semanas trabalhando no Haiti e escrevi um email para compartilhar minhas impressões com os meus amigos. Por sugestão do Bruno, e considerando que este blog tá bem morto mesmo, achei que valia a pena compartilhar aqui.

Gente, o Haiti é uma loucura. Antes de ir, pensei que a Stéphanie, minha colega que foi comigo e que já tinha ido ao Haiti em duas missões anteriores, estava exagerando sobre o país. Pensei que para quem conhece países como Venezuela, Guatemala ou Panamá, o Haiti seria sussa. Mas não, não é.
É muito pior do que tudo o que já vi (deve ser mais parecido com partes da África, Índia ou Bangladesh).

Os sinais do terremoto estão por todo o lado. Até o palácio presidencial (foto aqui) está completamente destruído. O presidente se instala numa casa ao lado, isso quando ele está no país, já que ele passa a maior parte do tempo em sua casa de Miami. Mas nem vou entrar no tema da política por lá, porque é muito mais profundo.


As pessoas não têm trabalho. Ponto. Para quem conhece, lembra de como é nos países da América Latina em dias de mercado? Fica todo mundo na rua, andando pra cima e pra baixo, vendendo coisas, conversando, fazendo nada? Então, em Port-au-Prince é assim todos os dias. Todos os dias mesmo. E todas as horas do dia. Todas as horas mesmo.



Eu fiquei pensando numa imagem para as pessoas entenderem do que estou falando. Pois pensei no seguinte: imaginem as ruas da Pompeia cheias de muitas subidas e descidas e bem estreitas, com calçadas mais estreitas ainda e de mão dupla, certo? (podem imaginar Santa Tereza no Rio também, acho que é até melhor...), entonces, aí, tirem as casas e coloquem barracas, tendas, empilhados de madeira, concreto, tudo muito destruído, destruído mesmo, sem um pedaço da casa, com as paredes abertas e muitas lonas para tapar e cobrir tudo. Tirem também arvores que eventualmente existam e tirem um asfalto bem feito ou minimamente acabado e incluam no lugar uns buracos do tamanho do mundo. Agora adicionem lixo, muito lixo, em sacos, ao ar livre, empilhados ou espalhados. Fuçando nos lixos, coloquem cachorros, porcos, cabritos e galinhas (muitos e na mesma quantidade). Aí, coloquem as pessoas, muitas pessoas, de todas as idades, andando ou paradas, sempre carregando algo, grandes baldes ou tigelas enormes e pesadas na cabeça, outras pessoas sentadas no chão, vendendo frutas e legumes, vendendo roupas ou produtos de beleza ou minutos de celular, ou bilhetes de loteria. Muitas pessoas vendendo, quase ninguém comprando. Então, adicionem os carros. Dois tipos diferentes de carros, os jipes americanos mais ou menos bem cuidados da elite e da cooperação internacional, e os carros caindo aos pedaços do povo. 


Por último, incluam o transporte coletivo, que é feito por um carro tipo uma saveiro, super coloridos, com desenhos variados, com imagens de jogadores de futebol brasileiros (vi um Messi também, vai...), frases religiosas ou de motivação, enfim, decorados de todas as formas, com uma cobertura alta na parte de trás, em que as pessoas se sentam/empilham para serem transportadas. Como trilha sonora, incluam as buzinas, o tempo todo. E como cenário de background, sol, 32ºC, e chuva, muita muita chuva no fim da tarde, o que gera as enxurradas e subsequentemente as poças, que permanecem pelos próximos dias. Também no background e com uma frequência relevante, incluam grandes caminhões das Nações Unidas carregando soldados ou pedras.



Agora vcs visualizaram Port-au-Prince. E não é assim numa única área. Andei a cidade toda e é assim por todo o lado.



O único (único!) lugar bonito que vi na cidade toda é o palácio destruído. A catedral (aqui), ou o que sobrou dela, também é linda.
Ok, vi também dois restaurantes e um hotel frequentados pela elite local e pela cooperação internacional.






Mas, voltando ao caos. Com a situação descrita, é fácil deduzir que o transito não anda, por óbvio. Não anda. Para ir de um lugar a outro, o normal é levar uma hora. Ainda que seja bem perto. Um dia, ficamos 40 minutos parados dentro do carro na frente de um buraco na rua que estava sendo consertado naquele momento. Era uma encruzilhada de três sentidos (acho que isso não é muito preciso, mas tudo bem) e ninguém conseguia atravessar. Havia um policial tentando coordenar o fluxo, ou melhor, desentalar o sujeito que estava com o carro dentro da cratera, para conseguir liberar minimamente o tráfego e fazer fluir o trânsito. E outros 10 homens (ou mais) em volta, dando palpites. Chegou um mega carrão, de alguma autoridade ou de um endinheirado qualquer, vai saber, e veio cruzando todo mundo na contramão, porque por algum motivo, ele achou que ele ia passar. Todo mundo começou a xingá-lo, afinal, ele travou o transito de tal maneira que era muito difícil visualizar uma saída (foto abaixo). Aí, sabem o que o policial fez? Mandou todo mundo à merda e foi embora. Juro, assim mesmo. Eu e Stéphanie quase descemos para tentar coordenar a coisa. Mas o nosso parceiro local nos proibiu (ainda bem!).


No Haiti, há uma montanha de cooperação internacional. E ao que parece, não está funcionando. São milhões e milhões de dólares investidos para pagar o RH de todas as organizações que deve sobrar bem pouco para investir mesmo em transformar o país. A vontade é de dizer para todo mundo o seguinte: parem tudo, sentem, conversem e tracem um novo plano, porque do jeito que tá, não está funcionando. Ponto.

Fiquei duas semanas por lá (que pareceram seis meses) e não sei o que acho dos haitianos. Não dá nunca para saber se eles estão felizes, tristes ou putos, é sempre muito difícil. Chama a atenção é que eles são vaidosos, muito vaidosos. Estão sempre muito bem vestidos e penteados, o que é bastante surpreendente se você pensar no caos que é a cidade e as casas das pessoas, além do calor que faz por lá. Talvez por esse excesso de vaidade é que o comércio que mais se vê pela cidade é Salon de Beauté para mulheres e Barber Shop para homens. Quando pegamos a estrada, chamou a atenção também a quantidade de funerárias. Pros haitianos, os ritos funerários são super importantes e eles gastam muito dinheiro nisso. Parece que uma das coisas mais sofridas para eles no pós-terremoto foi não poder enterrar propriamente os mortos. Lembram que eles queimaram os cadáveres nas ruas? Então, parece que isso foi muito difícil por lá.


Por lá, visitei também um campo de refugiados, chamado Camp Corail (foto abaixo). Apesar de imaginar que não deve ser fácil viver num campo, eu preferiria um milhão de vezes morar ali do que em PAP. Mesmo. São minicasas de madeira, banheiros públicos compartilhados, luz elétrica eventual, mas tudo é muito mais limpo e organizado do que na cidade.








Aliás, fora de PAP, o Haiti é bonito, devo dizer. As cidades seguem sendo caóticas e feias, mas as praias são maravilhosas. Eu e a Steph passamos o fim de semana em um hotel na Ile-à-Vache (ilha da vaca), um lugar maravilhoso. O hotel era de um francês e por ser a ilha uma rota haitiana e jamaicana pro tráfico de drogas, temo que ele deva ser um big boss do tráfico por lá e o hotel é só fachada ou lavagem de dinheiro. Não sei, não investiguei, só fiquei com a impressão. Talvez se tivesse descoberto algo não estaria aqui para contar a história, né?





Na volta da ilha, nosso carro quebrou na estrada, perto de Les Cayes, uma cidade “perigosa” do Haiti. Nosso motorista não sabia o que fazer (nosso primeiro motorista era surreal, do tipo que vc não sabe se sente dó ou raiva, sabe?) e essa foi uma experiência bem desagradável. Senti medo, o que eu detesto sentir. Medo por ser mulher parada no meio de uma estrada, com um monte de homem parando na estrada não para te ajudar, mas para olhar. Horrível.

Mas além do medo, o que mais me incomodava era a culpa. No Haiti, eu me sentia culpada o dia todo. Culpada por ter uma situação melhor e pensar que as pessoas vivem assim; por sentir nojo de algumas coisas que são cotidianas por lá; por querer trocar de motorista porque ele não fala francês e não conhece bem os caminhos, mas saber que ao pedir para substituí-lo, ele perderá o emprego; por achar o hotel muito ruim quando o meu quarto é muito maior do que a casa da maioria das pessoas; por saber que estou por lá trabalhando com algo que pode melhorar um pouquinho a vida das pessoas, mas me sentir meio estelionatária porque sei que, do jeito que a coisa anda, nada vai mudar de fato no fim das contas. Enfim, sabem essa sensação?
Então, e horrível sentir-se mal o tempo todo por sentir-se mal de estar em algum lugar.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sobre a minha primeira vez

Posso contar uma coisa bem pessoal?
Posso, claro, né?, o blog é meu.

Hoje, nesse dia 31/10/2011, faz exatamente 18 anos da primeira vez em que fiquei menstruada.

Eu fui contar sobre a maioridade da minha menarca para o Guiba. E ele não achou nada demais nisso e ainda me perguntou porque eu, que não tenho memória para nada, lembro desse dia.
Pois bem, eu lembro desse dia. E vim aqui para contar.

Lembro porque era Halloween, agora Dia do Saci nas terras brasileiras.
E era um feriadão de calor por aqui.
Lembro que no prédio para o qual eu tinha me mudado pouco tempo antes, o antigo zelador deixara seus móveis no salão de jogos que ainda não tinha jogos.
Sofá, colchão, cadeiras, o cenário ideal para... olimpíadas.
E nós, a molecada do prédio, estávamos lá, brincando de olimpíadas com os móveis do cara.
Como vocês devem ter sido capazes de imaginar, olimpíadas consistia em fazer atividades de pular o sofá e cair no colchão, de diferentes maneiras, dar cambalhotas e estrelas e se estatelar no colchão, fazer obstáculos com os móveis, enfim, uma infinidade de possibilidades.
Bom lembrar que àquela época não existiam câmeras nos prédios que rapidamente denunciariam as nossas peripécias olímpicas.
Enfim, éramos crianças felizes, ativas e não vigiadas por vídeo-monitoramento.

Mas não é que justo naquele dia em que a brincadeira era a manobra radical eu deixei de ser criança e virei mocinha?!?!

Eu me senti meio estranha, com uma sensação estranha, na verdade, e subi em casa para fazer xixi.
Ao me ver ali, com aquele sujinho na calcinha, chamei minha mãe.
E minha mãe, que pode render vários posts por si só, teve aquela atitude típica (?) de mãe.
Achou incrível minha primeira menstruação e foi toda feliz me abraçar enquanto eu estava sentadinha na privada com cara de não estou nada feliz com esse momento.
E trouxe o absorvente.
Dicas práticas sobre como usar / quando trocar, enfim a etiqueta do absorvente, e lá fui eu de absorvente no meio das pernas voltar para a olimpíada.
Vale lembrar que à época o Intimus Gel ainda não tinha revolucionado o conceito de absorvente, a gente chamava absorvente de modess e o troço dava a sensação de que você estava usando uma tábua de passar no meio da pernas.
Preciso dizer que não consegui mais me sentir uma atleta olímpica com habilidade e desenvoltura de movimentos???
E como toda pré-adolescente, eu não poderia imaginar vergonha maior naquele momento do que se os meus colegas atletas olimpícos descobrissem a minha condição.
Disse que estava com dor de barriga.
E passei o resto do dia em casa me sentindo a ex-criança mais infeliz da face da terra.

Mas era noite de Halloween e nós tínhamos programado fazer um "doces ou travessuras" pelo prédio todo.
Aí, lá fui eu, me sentindo super desajeitada, de porta em porta, junto com meus colegas bruxas e zumbis para ganhar doces pelo prédio.

Lembro bem da sensação de me sentir fora de contexto.
Eu era uma mocinha. E lá estava eu fazendo coisas de criança.

Enfim, não lembro mais de nada relevante a não ser essa sensação de estar fora de lugar e estar usando uma tábua de passar.

Passados tantos anos, além da sensação de ter envelhecido (essa me acomete sempre que que calculo quantos anos já se passaram de algum fato marcante, por exemplo, já faz mais de 10 anos que tenho carta de motorista!), penso que vai ver que esse trauma da primeira vez fez com que eu, para todo o sempre até hoje, odiasse ficar menstruada.
E vai ver que é por isso que eu tenho tantas histórias cômicas ou dramáticas com esse que deveria ser um fato simples e corriqueiro na vida de qualquer mulher.
Até que decidi que isso não é para mim. E farmacêuticos abençoados tornaram o meu sonho realidade.

É isso.
Um brinde à maioridade da minha vida de mocinha.
E aos farmacêuticos.